quinta-feira, 7 de julho de 2011

Vozes do Vento

    
  Era muito frio o clima daquela cidadezinha que se localizava ao pé da montanha do pico de gelo, lá morava Safira, uma moça esperta e aventureira. Safira tinha dois irmãos mais velhos que ela, era a única ter nascido com os cabelos cor de fogo naquela família, os outros possuíam cabelos negros. Todos, inclusive a menina, possuíam a pele muito branca. Todos os dias ao final da tarde Safira ia até os pinheiros, lugar onde o pai cortava lenha para os fogões de ferro do pequeno povoado, assim era a forma de ganharem a vida, certo dia Safira levava algumas toras de lenha para a casa de uma senhora que morava mais afastada, até então seu pai sempre mandava um dos meninos, irmãos dela, pois ele achava um tanto perigoso para a menina ficar perambulando ao crepúsculo do dia sozinha naquele povoado frio. O vento estava fraco mais muito gelado, pareciam agulhas que furavam o rosto branco da menina. Durante a Caminhada acompanhada somente com o som do vento a menina imaginava uma canção com o uivar do vento, era incrível de certo modo até palavras se formavam e ela quase entendia. Chegou então na casa afastada, propriedade de uma velha senhora, tão velha que quando a mãe de Safira era pequena já conhecia a senhora naquela velhice, bateu na porta até que a velhinha lhe atendesse.
    Diferente do que pensava olhou para aquele rosto enrugado e contemplou o olhar doce que admirava Safira com um fraco sorriso no rosto.
_Queira entrar minha jovem. _Os olhos da idosa correram para trás do lugar onde a menina estava e então viu o carrinho cheio de lenha. _Há! Hoje trocaram de entregador!_sorrindo a velhinha saiu para pegar o dinheiro.
      Aquela casa era fantástica! Cheia de enfeites  e cores. A velhinha chegou.
_Tome seu dinheiro querida!  Pegou então a lenha e enquanto Safira conferia o valor a idosa sussurrou:_não dê ouvidos ao vento, ele não irá lhe beneficiar em nada.
_Obrigada! Mas eu vou, já está ficando escuro.
    Safira sorriu para a senhora e saiu em meio ao vento. O vento ia ficando forte junto com a escuridão da noite, mesmo achando bobagem a menina parou de pensar que o vento podia falar, porém começou a ter dificuldades de visualizar seu caminho, o vento uivava em seus ouvidos trazendo pânico junto com sua discreta canção. Safira já estava acreditando estar perdida, coração disparado, pernas fracas ela sabia que se perder agora seria fatal a ela, o pouco que enxergava a desagradava, se estivesse no caminho certo iria visualizar as luzes do povoado, mais ela só via escuridão. O vento zunia, como se fosse uma música fúnebre,  tornando o desespero da menina cada vez mais forte. Caminhou durante uma hora e meia, era confirmado, estava perdida, chorar era uma má idéia seu rosto congelaria, assim pensava a menina, só tinha uma chance de sobreviver que era se acomodar perto de alguma árvore se encolher para que seu corpo lhe esquentasse e assim fez, perto de um pinheiro a menina se acomodou, mas o que havia acreditado ser possível não ocorreu, seu corpo não aquecia, seus dedos da mão doíam suas pernas já estavam adormecendo era muita dor naquele corpo magro, muito frio para que ela conseguisse pensar em outra coisa. Não tinha sono, não tinha força o único som além do vento era o bater de queixo que não era fácil controlar, foi inevitável não escutar que o vento lhe falava palavras enroladas que aos poucos iam ficando nítidas. Com os olhos fechados toda encolhida Safira sentiu uma corrente de vento mais gelada passar por ela, abrindo os olhos com o susto foi onde a menina viu vultos brancos circular onde ela estava, mas  “o vento engana os olhos”, era o que ela recordava de seu pai no momento, ele sempre dizia isso, fechou os olhos mas desta vez não era somente ilusão visual...


_Olá menina dos cabelos cor de fogo! _uma voz tão fria quanto o vento falou como se estivesse ao lado de Safira, a qual arregalou os olhos e viu então ao seu lado uma mulher da pele mais branca que a dela, com cabelos longos prateados vestindo uma fina roupa de cetim pérola.

_Quem é..._ Safira mal conseguia abrir os lábios de tanto frio, a dama de branco chegou perto dela e a abraçou com seus gelados braços finos, porém fortes.
_Sou a causadora de tanto frio, para alguns Dama do Inverno, outros me chamam de rainha Branca, mas na sua cabeça o meu nome é Bruxa de Gelo.      Enlaçando a menina pela cintura deixando onde botava a mão fria uma marca branca por cima da roupa. 
_Gosto dos seus cabelos! _Dizendo isso a Bruxa de Gelo Sorriu. _pegarei para mim assim que você congelar. Safira sentiu uma lágrima cair e congelar com o toque de dedo da Bruxa tão bela que secou a lágrima num olhar medonhamente doce.
 _Por favor não chore! Lágrimas de moça não me ajudam em nada, você ficará bem! A morte minha querida não é de forma alguma punição as religiões pregam que é a salvação deveria me agradecer.
      Sorrindo maliciosamente a Bruxa de Gelo secou mais algumas lágrimas que rolaram Safira não tinha muitas, sentia que até chorar era difícil, ela estava realmente morrendo. Seus olhos fechavam e se congelavam sentia o dedo da Bruxa circular o rosto criando uma fina camada de gelo impedindo qualquer expressão que Safira podia fazer.
_Chega de expressões . _A voz da Bruxa se transformou em um zunido de vento cortante, sentindo o corpo adormecer e o frio diminuir Safira imaginou que já estava morrendo.

       Lá estava ela sentada na beirada da cama de seu quarto, uns 8 anos mais nova escutando o que a mãe lhe falava:
_Somos todos seres mágicos minha boneca, temos um pensamento poderoso que quando usado com uma ponta de desespero e uma grande porção de fé ele pode nos salvar de medos que as vezes nem são tão apavorantes. _ A mãe de Safira sorriu deitou a menina na cama cobriu ela com os cobertores e deu um beijo quente na testa da menina. Saiu do quarto e se foi. Sendo esta a  última coisa que a mãe dela disse antes de morrer. 
     “Minha mente zoa comigo”  riu mentalmente Safira. “minha mãe deve vir me buscar, ou será que eu devo imaginar isso como que ela me disse que era possível? Imaginar que alguém pudesse me salvar seria mais confortador que rever minha mãe assim tão cedo.” Safira por um minuto caiu na tentação de se imaginar em uma cama bem quente, mais não deu muito certo, por que o frio aumentou e novamente ele começou a sentir as pontadas de dor, sim estava sentindo! Não estava morrendo! Estava sentindo frio por que seus sentidos estavam funcionando, sentiu-se arrastada mas ainda não conseguia abrir os olhos. Escutou gritos de mulheres, distantes, num movimento facial a camada fina de gelo que mascarava seu rosto se quebrou e então ela conseguiu abrir os olhos, haviam duas Bruxas, a de Branco e uma com uma capa verde, a de capa verde emanava calor de suas mãos detendo a Bruxa Branca distante, esta parecia estar sofrendo uma dor horrível chorava suplicando que a Bruxa de Verde a solta-se, a de Verde falava calmamente como se não tivesse fazendo força alguma "não podes invadir minhas propriedades atacando os que estão ao meu cuidado! temos um trato Zaragous, Feiticeira do gelo, você deve cumprir." Safira contemplou a Bruxa de Branco sumir lentamente desesperada, seus olhos pesavam sentiu o frio por mais alguns instantes até que um calor inundou seu corpo onde conseguiu adormecer sossegada.


_Salsichas fritas? _ofereceu a velha que estava sentada na beirada da cama, Safira concordou e logo começou a comer tomando uma caneca grande de chocolate quente.

_Como a senhora me achou?
_Vi nos seus olhos que você iria escutar o vento, então não consegui dormir sossegada e sai a sua procura.


     Safira olhou para aquela idosa contemplou o olhar doce, será que ela sabia? será que ela viu as Bruxas? ou feiticeiras? Será que Safira havia sonhado?

_Qual o seu nome?
     A mulher se levantou foi até um espelho que tinha no cômodo onde Safira estava descançando e do espelho olhou para a menina, não a imagem da senhora, mais sim uma moça dos cabelos negros e olhos verdes e pele morena contornada por um vestido rosa claro protegida do frio por uma capa verde, ali no espelho estava a jovem que salvou Safira.
_Na mente de muitos eu trago a primavera, realmente procuro puxar o verão emitindo um calor calmo que favoreça as plantas, mas em sua doce imaginação sou a Bruxa Boa.    

     A moça sorriu virou-se para Safira como idosa e assoprou um vento quente que Safira fechou os olhos, quando abriu o cenário havia mudado, Safira não estava mais na cama quente, estava agora em frente a uma porta, a porta de sua casa bateu desesperadamente antes que a Bruxa se Gelo a visse, seu pai atendeu a porta.
_Já era tempo, se fosse um de seus irmãos já estaria em casa há quinze minutos.



Safira entrou na casa sem falar nada, ninguém acreditaria! Nem ela sabia se acreditava, mas uma coisa sabia só lembrava das duas bruxas e nada lembrava de ter voltado pra casa.
_Pai, posso te pedir uma coisa? _ Perguntou Safira._Bom já está pedindo. _Sorriu ele. _Mas eu autorizo você pedir outra. _Quando eu for levar lenha para aquela jovem idosa, por favor, me mande pelo menos uma hora antes, para que eu possa ir e vir sem que esteja escuro?
_Bom, vamos providenciar isso! _Falou o pai desconcertado.
   Safira entrou e foi ao seu quarto, deitou em sua cama e então sentiu em seu braço a pele arder puxou a manga da blusa e viu as marcas das mãos da Bruxa de Gelo ou ela poderia ter esbarrado em algum galho foi quando um calor anormal lhe esquentou o braço,e ali tinha uma flor de vidro com pétalas rosa claro com três folhas que variavam em tons de verde, sim ela não havia se enganado havia escutado as vozes do vento.

Um comentário:

  1. pois eu digo e repetirei sempre, você escreve de um jeito tão fantástico e faz com que eu viaje na leitura, como seu eu fosse um dos personagens! Teu talento é lindo!

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